quarta-feira, 20 de maio de 2009

EXTREMISMO NÃO É A SOLUÇÃO!!



Considero o movimento pentecostal importantíssimo na história do cristianismo contemporâneo. Historicamente, as reuniões presididas por William Seymour na Rua Azusa em 1906, e a sua expansão, foram essenciais num momento tenso em que o racionalismo ganhava cada vez mais terreno, e que influenciava até mesmo alguns teólogos daquela época que passaram a questionar bases do cristianismo, como o pecado original e a existência de um Deus pessoal que se relaciona com os seres humanos. Podemos dizer então, que fundamentalmente o pentecostalismo foi um protesto espiritual contra o “secularismo” na igreja do inicio do século XX.

Se no começo do século passado o pentecostalismo foi fundamental como movimento, hoje 103 anos depois, no seu apogeu, ele me assusta. Por quê? Por um motivo bem simples. Ao longo dos anos estão transformando o pentecostalismo de um propósito muito sutil (de resgate de valores e do despertar ao relacionamento com Deus por meio do Espírito Santo) em uma fórmula de alienação de massas e controle ideológico.

A maioria dos pentecostais contemporâneos tem uma idéia empírica do que é relacionamento com Deus, baseados não em conhecimento, mas em experiências. Há uma inclinação a uma visão pragmática da funcionalidade e não da veracidade. Aliás, a grande maioria das pessoas que freqüentam as igrejas pentecostais tem um conhecimento muito reduzido sobre Deus e sobre as verdades bíblicas, mas muitas experiências pra contar. Vivencio uma tendência ao extremismo que diz que aqueles que procuram biblicamente defender os ideais cristãos são “crentes nominais”, “frios” ou “pouco revestidos”, enquanto os manipuladores emocionais de massas são vistos como “homens de Deus”. ( imagino o que pensariam de Paulo nos dias atuais ou no próprio Jesus que declara quando preso que “ensinou todos os dias” )

Não me considero um racionalista e muito menos (embora tenha freqüentado a vida inteira igrejas pentecostais) um pentecostal no sentido coloquial da palavra. Não posso ser um racionalista, porque se o fosse, provavelmente minhas deduções me levariam a duas opções: negar a existência de Deus como faz todos os ateus, ou negar a existência da ligação que existe entre Deus e os homens. Acredito incondicionalmente na existência de Deus, e ainda muito mais que ele quer, e se relaciona conosco. Por outro lado não poderia ser um pentecostal ( no sentindo coloquial ), pois não acredito que ações extravagantes, lágrimas, suor, glossolalia, gritos que mais parecem aquilo que Jung chamou de “histeria coletiva” representam fielmente o modelo ideal de relacionamento, que devemos ter com Deus.

Não posso como cristão simplesmente esquecer que o cristianismo tem muito mais de conceitual e aprendizado do que experiências emocionais. Jesus é muito mais importante pelo seu ensino do que pelos milagres que operou. A maior parte do Novo Testamento é de ensinos e conselhos. Paulo e os outros apóstolos exaustivamente orientam as igrejas. O próprio Jesus diz que suas palavras são “Espírito e Vida”. A Palavra tem papel tão importante na vida cristã que é chamada de pão e alimento, ou seja, vital para que se haja vida. Entre as funções do Espírito Santo que muitos ignoram está: “fazer-vos lembrar das palavras que eu vo-los tenho dito”.

O que quero dizer é: não há como menosprezar as manifestações do Espírito Santo. Acredito nelas como já as presenciei. Porém não posso aceitar que a vida cristã seja resumida em apelo emocional, ritualístico, extravagante e até mesmo esotérico. Coisas básicas como mudança de vida, amor ao próximo só vão conseguir fazer efeito em nós quando deixarmos que os conceitos e valores de Deus entrem nas nossas vidas por intermédio do ensino da Palavra, e não quando entrarmos em transe coletivo em um dos apelos frenéticos de algum “profeta” espalhafatoso, e aqui, fatalmente deparamo-nos como uma atividade mais conceitual do que emocional. A verdadeira fé é sentir-se amado, querido e perdoado por Deus sem a necessidade de demonstrações espetaculares. Quem realmente conhece a Deus, não precisa senti-lo de vez em quando, pois tem convicção que ele está presente a todo o momento porque é exatamente isto que a Palavra diz.

Concluo que o melhor caminho a seguir é evitar os extremismos. Parece-me que há uma idéia disseminada que é impossível viver um cristianismo sem “escolher um lado”, “escolher um rótulo”, ou “uma verdade absoluta”. No livro Cristianismo Equilibrado John Stott diz:

“Alguns crentes são tão friamente intelectuais que se questiona serem eles mamíferos de sangue quente, para não dizer seres humanos, ao passo que outros são tão emocionais que se deseja saber se são possuidores de uma porção mínima de massa cinzenta. Eu me sinto constrangido a dizer que o mais perigoso dos dois extremos é o anteintelectualismo de depois a entrega ao emocionalismo...
Sinto-me na obrigação de acrescentar, contudo, que se o antiintelectualismo é perigoso, a polarização oposta é quase igualmente perigosa. Um hiperintelectualismo árido e sem vida, uma preocupação exclusiva com ortodoxia não é cristianismo do Novo Testamento. Não há dúvida de que os crentes primitivos eram profundamente motivados pela experiência de Jesus Cristo.”

Posso muito bem ser pentecostal, não extremista, que entende a importância de uma vida de momentos e Ação do Espírito, porém não ignorando os meios conceituais que envolvem a mensagem do Evangelho. Não precisamos de extremismos. Conhecimento e espiritualidade podem andar de mãos dadas, sem racionalidade e extravagâncias religiosas.

6 comentários:

Márcio Cruz disse...

Aê mano!

Esta foi uma postagem que baixei do Pr. Altair Germano que tem a ver com suas colocações que diga-se de passagem estão muito bem colocadas e expostas, pois sabemos o que de fato ocorre em nosso maio hoje:

*o mesdmos segue-se em partes porque o blogger não aceitou a quantidade de palavras.

"Engole-se um camelo e engasga-se com uma bactéria (adaptação minha)".

Que Deus, o Pai em Cristo Jesus continue lhe abençoando rica e abundantemente.

Abraços na Paz do Senhor!

A JUSTIÇA DOS ESCRIBAS E FARISEUS
E SUA IMPLICAÇÃO PARA A IGREJA NA ATUALIDADE

"Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus." (Mt 5.17-20)

O texto acima faz parte do clássico Sermão da Montanha (ou Monte), onde a ética do Reino de Deus foi claramente exposta por Jesus.

Nos chama a atenção, o fato de que em meio ao seu enunciado ético, Jesus resolve abordar questões morais, culminando com a seguinte declaração: "se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus". O que Jesus pretendia afirmar ou revelar com isto? Quais as implicações para nós, discípulos seus na atualidade? Para tais respostas, algumas considerações são importantes.

Márcio Cruz disse...

OS ESCRIBAS E FARISEUS

Devido ao papel central da Lei no Antigo Testamento, no período pós-exílico, os escribas (ou doutores e mestres da lei) surgiram como uma classe especial de especialistas e intérpretes (teólogos e exegetas). Em sua grande maioria eram fariseus. Mediante seus estudos, buscavam sempre adaptar e atualizar a Lei às novas demandas da vida social e religiosa.

Seus ensinamentos eram oriundos da mera "reprodução" das opiniões de mestres anteriores, apoiados na tradição e autoridade rabínica. Investigando a Lei, chegaram a descobrir nela 613 mandamentos divinos, onde 365 eram de proibição (negativos) e 248 de orientação (positivos). A obsessão pela guarda destes mandamentos deu origem ao legalismo e ao moralismo dos tempos de Jesus.

A formação dos escribas acontecia mediante intenso estudo da Lei. Receciam, após completarem quarenta anos, uma ordenação que os habilitava para o exercício de seu magistério e para as funções judiciais.

Já os fariseus ("os separados"), grupo religioso ao qual boa parte dos escribas pertenciam, de origem incerta (provavelmente a expressão de uma rígida abstenção dos costumes pagãos do período de Esdras e Neemias), constituíam um segmento do judaísmo que se propunha em levar as observâncias religiosas até às últimas consequências e minúcias da vida. Na época de Jesus eram uns seis mil. Eram também obsessivos em alcançar a perfeição espiritual e moral, afirmando ser a mesma possível nesta existência. Sua aparente virtude impressionava o povo, e eram o instrumento para sustentação de prestígio e influência. Escribas e fariseus foram grandes opositores do ministério e ensino de Jesus (Mt 7.29; Jo 8.1-11).

Márcio Cruz disse...

MORAL E ÉTICA

O não entendimento dos conceitos de "moral" (lt. mores) e "ética" (gr. ethos), tem sido motivo para a prática moralista de lideranças e igrejas cristãs na atualidade. No presente contexto, moral e ética falam de costumes.

Buscando um melhor entendimento sobre o tema, estudos recentes estabelecem uma distinção (tênue) entre moral e ética. Ives de La Taille (2002, p. 30 apud MORETTO, 2009, p. 56), faz a seguinte consideração:

"[...] entendo por moral tudo o que fazemos por dever (como em Kant), ou seja, submetendo-nos a uma norma de vivida como coação ou mandamento; e entendo por ética tudo o que fazemos por desejo ou por amor (como em Spinoza), ou seja, de forma espontânea, sem nenhuma coação outra que aquela da adaptação ao real."

Esta definição nos permite fazer uma comparação entre moral e ética:

Moral - Tem haver com regras e normas
Ética - Tem haver com princípios e valores

Moral - O que devemos fazer
Ética - Como devemos viver

Moral - Obedece as normas
Ética - Questiona as normas

Moral - Tem haver com justiça
Ética - Tem haver com generosidade

Moral - Se origina da Ética
Ética - É a origem da moral

Moral - Transfere responsabilidades
Ética - Assume responsabilidades

Moral - Postura necessária
Ética - Postura ideal
Moral - Imaturidade do ser humano em suas atitudes para com Deus, o próximo e consigo mesmo
Ética - Maturidade do ser humano em suas atitudes para com Deus, o próximo e consigo mesmo

Moral - Os Dez Mandamentos
Ética - O Sermão do Monte

Moral - Os escribas e fariseus
Ética – Jesus

Márcio Cruz disse...

Quando contemplamos estas diferenças, logo percebemos que "exceder a justiça dos escribas e fariseus" não deve ser compreendido em termos quantitativos, ou seja, Jesus não está ordenando uma vida meramente (e hipocritamente) pautada na observação de regras e normas (e quanto mais melhor). É exatamente desta maneira distorcida e equivocada, que se vivencia o Evangelho na grande maioria de nossas igrejas.

A orientação da vida dos crentes é geralmente fundamentada por regras e normas que fazem parte da tradição da igreja, tradição esta maior que a própria Escritura (Mt 15.1-20). A prova disto é o silêncio e os fracos argumentos das lideranças (católicas e evangélicas), diante de uma contestação bíblica e coerente.

Para exceder a justiça dos escribas e fariseus, a nossa justiça (moral) precisa estar, acima de tudo, fundamenta na generosidade (ética) do Reino. Não é de quantidade ou da rigidez das normas que Jesus fala, mas, da qualidade e da generosidade da ética.

Para sabermos se vivemos pela moral (justiça) ou pela ética (generosidade), algumas perguntas são necessárias:

Márcio Cruz disse...

- As disciplinas aplicadas aos membros e líderes, são geralmente fundamentadas na justiça da moral ou na generosidade da ética? Na quebra de normas ou de princípios?

- Os cultos de "doutrina" "instrução" ou "estudo bíblico", trazem em sua maioria, conteúdos morais (normativos) ou éticos (sugestivos)?

Como bem coloca Moretto (Idem):

"[...] Moral e Ética são temos relacionados a hábitos e costumes que estabelecem valores e princípios, os quais originam as regras da boa convivência social. Sua aplicação não é simples, se quisermos ser ao mesmo tempo justos e generosos".

Jesus não veio acabar com a moral, mas veio combater o moralismo (ausência de generosidade na aplicação da justiça): "Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir" (Mt 5.17). A grande questão não é se cumprimos ou exigimos a Lei, mas, como cumprimos e a exigimos.

Para saber se cumprimos, a fala de Jesus ao intérprete da lei é pertinente:

"E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na Lei? Como interpretas? A isto ele respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Então, Jesus lhe disse: Respondeste corretamente; faze isto e viverás." (Lc 10.25-28)

Márcio Cruz disse...

Perceba que não foi numa lista de normas (moral) em que a resposta do intérprete da lei, confirmada por Jesus, se fundamentou, mas, em princípios (ética).

Concluo citando o professor Marcelo Gusson:

"[...] não podemos ter somente a ética porque muitas pessoas são imaturas e não conhecem a grandeza de seus ensinamentos. Portanto, precisamos também da moral para orientá-las no processo de amadurecimento".

Na medida em que crescermos em maturidade cristã, teremos menos normas e mais princípios norteando a nossa existência e convivência. A nossa justiça excederá então a dos fariseus.


REFERÊNCIAS

MATEOS, J.; CAMACHO, F. Jesus e a sociedade de seu tempo. São Paulo: Paulinas, 1992.
MORETTO, Vasco Pedro. Planejamento: planejamento e educação para o desenvolvimento de competências. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
PFEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. Wycliffe: Dicionário Bíblico. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.